A Hora do Jazz (último capítulo)

A Comédia em Pé do Meu Amigo aconteceu em outubro de 2012, numa quarta-feira à noite, no café rock’n’roll da viúva de M. Tinha umas trinta pessoas lá dentro, como sempre.

Meu amigo aparentava tranquilidade antes de subir ao palco. Perguntei se não sentia falta de Keiko e dos meninos num momento tão grandioso, e ele respondeu que só Keiko sabia do momento grandioso, e que ela já estava dormindo quando ele ligou, e que a resposta dela foi tão natural que ele achou absurdo. E ligou novamente para perguntar se Keiko tinha entendido direito, e ela riu e disse que sim, que fizesse

isso mesmo, esse número com Bóris e Nigel, e se livrasse do peso. “Que peso? Não sei. Ela estava dormindo”.

Meu amigo vestia preto da cabeça aos pés, e eu pensei que devia ser por causa do contraste com a luz e o fundo, para que só ficasse no ar a força da piada na sua cara redonda e peluda.

A viúva de M. trouxe um raminho de flores para ele no camarim. Era um lugar apertado, “igual o templo do pai de Keiko”, ele disse.

A plateia era composta por alguns amigos e poucos desconhecidos, dois ou três fãs entusiasmados. Um deles segurava nossos dois discos, e demos nossos autógrafos. O do meu amigo dizia “Pela Glória do Samba”. O fã era um rapaz cheio de espinhas, o mais solitário da noite.

Incrédulos e excitados, vimos a luz se apagar, e um holofote iluminou o centro do palco, onde partículas de poeira ficaram dançando no espaço até ouvirmos os passos do meu amigo chegando devagar, para a eternidade.

Ele entra e os aplausos explodem. Há uma certa felicidade no ar.

Ele está mais magro e feliz. Em seus domínios.

O palco é pequeno, ele ajeita o microfone e não parece nervoso.

Diz boa noite com o sotaque de Bóris. Depois, conversa consigo mesmo com o sotaque de Nigel. Aí começamos a rir. Esta é a hora do jazz.

 

No casamento da irmã, ele tocou o sintetizador Casio antiquado que sempre usávamos, escolhendo um som de órgão que imitava um legítimo Hammond. A gravata berrante o enforcava. Tinha cortado a barba, restara apenas o bigode.

Ele não tocou a “Ave Maria” de Gounod como era de se esperar, e sim as notas principais de “A Whiter Shade of Pale”, do Procol Harum, e as repetiu e repetiu, com emoção. Foi assim que a irmã entrou na capela, rindo e chorando. Os filhos do noivo eram os pajens, e não conseguiam tirar os olhos do organista.

Na festa, só sucessos dos anos 80, e meu amigo dançou todos, à beira da piscina, na casa do seu pai. Parecia mais uma festa para ele, uma despedida, mesmo que ele nunca falhe, e no ano que vem sempre estará de volta, trazendo Keiko e a família, ou o que restar dela.

Seu grande número de dançarino acontece em “Love Will Tear Us Apart”, que é uma canção triste, mas não para ele, não para nós, pois meu amigo dubla Ian Curtis como ninguém. As pessoas sempre urram em volta dele, durante a dancinha epilética.

No fim da festa, no apagar das luzes, quando ajuda o pai a recolher o que sobrou de tudo, senta-se à beira da piscina e vê, entre os reflexos diáfanos da água, Keiko ajoelhada no jardim diante do templo caseiro do pai, e também Edu e Maya soltos no gramado mais uma vez, crescidos, morando em outros lugares, mas ainda se divertindo entre eles.

É só um hippie velho tamanho família que adora música, um leão desdentado com saudades de casa. A manhã está chegando. O tempo ruge.

 

 

ian-curtis-ultima-foto1.jpg

Ian Curtis e seu bebê

A Hora do Jazz (9)

“Ah. Encontramos um lugar pra você, Bóris e Nigel”, eu disse.

“Sério?”

0_d3a97_ece1045b_orig.jpg“Negócio sério”. Aí conto onde vai ser.

A música do karaokê parou. Olhamos em volta, os últimos fregueses do restaurante estão sentados atrás dele. É um casal japonês abraçado no mesmo lado de uma mesa de fundo. Ele, um velho de cabelos brancos e camiseta do Kiss. Ela, uma garota de franja e camiseta dos Beatles (Help!).

Meu amigo diz que eles se completam. “O Paul é o ídolo do Gene Simmons. Paul foi convidado pelo Franco Zefirelli para fazer o papel de Romeu. E não aceitou. Disseram que tinha morrido”.

O homem está com um cigarro apagado na mão, amparando a têmpora. Olha de lado para a menina, quer fumar lá fora e espera permissão. Mais um pouco e deverá se levantar. Ela sopra a franja para o alto e parece se divertir com ele. As unhas pintadas de preto, as mãos pequenas. Eu e meu amigo pensamos a mesma coisa: Keiko.

O homem fecha os olhos, e começa a dar atenção a uma música interior, movendo a cabeça no ritmo, suavemente. Ela parece escutar a mesma música. E ninguém se levanta.

Então meu amigo começa a recordar. Os fios da memória são sempre os mesmos.

“O cabelo dela era curto, lembra? E loiro, bem curto. Na moto, no vento, ele não ficava atrapalhado. Íamos assim para os comícios, sem capacete, apenas uns óculos de aviador na minha testa. Que louco!

Sei que não fui muito legal. Também não sei por quê. A gente vivia de um lado pro outro, um bando de camaradas numa espécie de luta contínua. Mas não havia luta nenhuma.

Lembro que nas reuniões secretas no sítio de alguém, todo mundo transava com todo mundo, era essa a fama do lugar. Por isso eu não deixava que ela fosse, e ela não ia. Ficava na minha garupa, o cabelo imóvel, a cabeça encostada no meu ombro, e era isso o que eu mais gostava.

Era mais ou menos bonita, muito bonita de corpo, ninguém virava a cabeça na rua por causa dela. Reclamei quando cortou o cabelo, mas depois encarei na esportiva. Não dei uma de Sinatra com a Mia Farrow no Bebê de Rosemary (“Vidal Sassoon. Gostou?”, ela diz no filme, mas na vida real o Sinatra detestou). Isso não.

Ela estava sempre igual, na chegada e na partida. Era um anjo. Com ela eu conversava sobre tudo, sobre o que é ter uma vagina e sobre o que quer dizer um sonho, de acordo com o Jung. Todos tínhamos mais simpatia pelo Freud e pelo Marx, e Trótski era o nosso guia, bem como Lambert, o ferroviário. Com ela eu discutia sobre o manifesto da F.I.A.R.I.* Sobre as últimas palavras de Trótski, “Natasha, eu te amo”, o que sempre nos levará ao âmago, ao mistério, à origem do mundo. A foto de Breton, Diego Rivera e Trótski juntos era um bom sinal para o futuro. Ela suspeitava que eles não fossem amigos, pois Trótski tinha sido amante de Frida, e Breton era Breton, com sua juba leonina.

Um dia desfraldamos a bandeira da Quarta Internacional no estádio de Vila Euclides, lembra? As camaradas ficaram costurando aquele quatro amarelo com a foice e o martelo no fundo vermelho até altas horas da noite. No entanto, quem costurou a bandeira não pode abri-la. Os homens da segurança fizeram o serviço.

Então, de uma hora para outra eu não estava mais a fim, e disse a ela um dia, ao deixá-la em casa, assim que desembarcou da motocicleta. Disse sem meias palavras, sem mais nem menos. Era o nosso hábito de homens e camaradas.

Ela ficou ali plantada, na frente do jardim, esperando que eu fizesse a curva e desaparecesse para sempre, mas eu a levei para casa dentro do meu retrovisor.

E é lá que ela continua, o cabelo ainda loiro e curto, uma trotskista na garupa de uma motocicleta.

Por isso tenho remorsos”, ele diz.

 

*Federação Internacional dos Artistas Revolucionários Independentes

A Hora do Jazz (8)

15977768518_824891d11e_b.jpgNem sempre ele era engraçado. Na verdade, era chato pra burro. Às vezes derrubava objetos pelo caminho, fazia uma imitação bastante boa de alguém ou se jogava na piscina imitando um aqualouco. Isso era tudo.

Nessa mesma noite, procurei o telefone da viúva de M., que tocava um café de estilo rock’n’roll bem modesto em algum ponto deserto da Barra Funda. Um café rock’n’roll fuleiro era tudo o que o meu amigo precisava como teatro.

Eu nunca tinha visto uma comédia stand-up na vida. Mas os comediantes não são todos neurastênicos na vida real? Jerry Lewis: heroinômano. I Clown, do Fellini: palhaços assustadores. No filme, o mundo é dividido entre Augustos e Brancos. Os Augustos são sempre torturados pelos Brancos. Mais ou menos como seria a vida. Que tipo de palhaço era o meu amigo? Baixos, gordos, altos, tatuados, com cara de idiota, sérios, de olhos ejetados, mortos, fazendo piadas sobre judeus e cinzeiros, sobre eles mesmos, histéricos, sem graça, estes são os verdadeiros comediantes. E aí vem o meu amigo, alto, gordo, uma âncora (!) tatuada no braço esquerdo, barbudo, pai de família, ex-trotskista e ex-roqueiro, trazendo Bóris e Nigel na bagagem. A viúva de M., tão estupefata quanto eu, ficou um tempo pensando do outro lado da linha. Fazia quantos anos que a gente não se via? No fim, topou a brincadeira. “É sério”, eu disse. A comédia em pé do meu amigo ficou marcada para o meio daquela semana. No céu, sem saber, ele dormia apertado no banco do avião, e sonhava.

Era um Monstro da Comédia em Pé.

Quando ele chegou, nos encontramos no mesmo karaokê de onde ele partiu para o autoexílio, e para o qual sempre retornava, ano após ano.

“Fomos pra Tailândia no verão, e não fizemos outra coisa a não ser comer e dormir num hotel cinco estrelas muito barato, no meio de toda aquela maravilha.”

Estamos no karaokê, mas o karaokê mesmo só funciona na parte de cima. Embaixo, comemos nosso peixe cru uma vez por ano. Nossas mulheres não gostam de comida japonesa. Keiko não gosta!

Ninguém ali embaixo se atreve a subir as escadas e cantar – são dois mundos diferentes. Ou se come ou se canta. Mas as vozes lá de cima começam a vazar, e ele retribui fazendo barulho com a sopa de missô.

Às vezes ajusta os ouvidos e presta atenção numa melodia. Acha engraçado descobrir gente que ainda canta certas coisas daquele tempo. As pessoas gritam de felicidade. Ele não deveria beber por causa da doença antiga, mas bebe mesmo assim.

Estar num karaokê e não cantar num karaokê nos acontece porque a música também cansa. Estamos bem cansados de música. Um dia ela simplesmente vai embora da sua vida.

Na longa noite do karaokê – e nós chegamos bem cedo –, meu amigo demora para entrar no assunto da comédia.

Então sua irmã vai se casar. O noivo é um cara legal. Traz dois meninos com ele. Gosta de fotografia.

A música do karaokê sobe tanto que quase cantamos junto. Os fregueses do restaurante não se deixam dominar, e continuam comendo.

“Escuta, é o Joy Division!”.

Na parede, uma folhinha antiga com a gravura da onda gigante, parada no mesmo lugar há vinte anos.

“E se tivéssemos vivido de música?”. Eis aí uma pergunta recorrente.

“Ao deixar o Velvet Underground, o Sterling Morrison foi trabalhar como marinheiro num rebocador. Saiu-se tão bem que virou capitão. Parecia feliz no seu barco”.

Quando Keiko e meu amigo se casaram, ninguém caiu de tanto beber, nem houve música de casamento.

Era uma manhã nublada de sábado, no começo dos anos 90. Às onze horas, os noivos e os padrinhos e algumas testemunhas, o pai da noiva e o pai do noivo (nenhum dos dois tinha mãe) foram até o cartório em Pinheiros e fizeram a cerimônia. Diante de um juiz sem terno nem gravata, assinaram os papéis e algumas pessoas aplaudiram, mas sem grande entusiasmo, para não estragar o casamento dos outros. E pronto, estavam casados.

Como nenhuma festa tinha sido planejada, fomos em comitiva até o restaurante que ficava perto da casa deles, e era um lugar mais próximo de um pé-sujo. Bebemos cerveja e comemos a carne que poderia ter sido o nosso café da manhã. Não tinha como não ficar alto àquela hora, e foi o que aconteceu.

Keiko não atirou o buquê para as amigas solteiras. Não era um casamento comum, não havia buquê, e ela estava vestida de vermelho, a sua cor favorita. E num determinado momento, estavam todos recostados em suas cadeiras de festa de casamento sem festa, e estavam pensando na vida, meio zonzos, como acontece nos casamentos depois que tudo termina. Teve gente que tirou os sapatos.

Não houve chuva de arroz, porque ninguém pensou nisso. E já havia um bebê ouvindo tudo na barriga de Keiko. O que ninguém suspeitava é que aquele dia azul em que o sol se impôs sobre todas as coisas, e as pessoas pensavam em tudo com aquela infinita doçura que o futuro traz quando estamos desarmados, esses momentos de um dia perfeito seriam os últimos.

No dia seguinte os dois partiriam para o que seria a lua-de-mel. O tempo se encarregou de plantá-los na Europa, aos poucos, adiando a viagem de volta. O pai do meu amigo viajou para lá e ajudou um pouco, o pai de Keiko esteve lá quando Edu nasceu. Depois, no nascimento de Maya. E depois estava morto.

“Eu e Keiko brigamos feio naquela viagem”.

“Bom começo”, eu disse.

Um dia Keiko foi ao quintal da casa em Londres e descobriu uma coisa num canto do jardim. Por isso ela chorou.

Era um nicho com uma foto do pai. Nela, ele aparece sério, mas vivia sorrindo, mesmo quando trabalhava. Era um protético e sorria. Levou a vida dessa forma, e agora ocupa o seu lugar no canto do jardim, próximo do balanço enferrujado dos meninos. Um nicho feito de uma foto com uma faixa preta de luto atravessada e um gato de louça com o braço erguido ao lado, balançando. Sorte sorridente.

Às vezes Keiko passa um bom tempo sentada ali, diante do pai, e meu amigo sente ciúmes. Os dois acabam brigando por causa do pai, que continua sorrindo para eles.

A mãe de Keiko morreu muito jovem. O pai criou as irmãs sozinho, duas delas já se foram, muito mais velhas, e outra teve um acidente em Londrina e vive de cama, entrevada. A família, ou o que sobrou dela, sofre, mas não deixa de achar engraçado o marido de Keiko, sua âncora tatuada no braço, sempre que o vê nas fotografias.

Em Londres, o pai frequentava o pub perto da casa da filha, bebia sozinho e depois seguia bêbado até o parque. Bebia pouco, mas tinha pouca resistência ao álcool. Observava tudo em silêncio, via graça em tudo, sabia ouvir, gostava de música e de Bruce Lee.

“Por tudo isso, merece o lugar no jardim”.

A Hora do Jazz (7)

peter_sellers_britt_ekland_01.jpg

 

Em 2001, na minha despedida de Londres, a família preparou uma festa no jardim, e nesse jardim um anão de pedra montado num cogumelo vermelho e branco tomava conta de tudo. A ideia era fazer um chá do Chapeleiro Maluco, e assim foi feito, com as xícaras todas diferentes umas das outras em tamanho, formato e cor, meu amigo agarrado à sua caneca de estimação e ao cachorro da família naquela época, um filhote peludo que destruiu os arranjos e trouxe o caos.

Aprisionado dentro da garagem, o cão tanto fez que acabou saindo e se comportando bem, que era o que a gente esperava dele, menos as crianças. Edu e Maya jogavam bilboquê (não me lembro como apareceram esses brinquedos, mas eles se divertiam muito) e a música das caixas colocadas do lado de fora da janela era a mesma que se ouvia no nosso tempo de rock, sem exceção, porque afinal se tratava de uma despedida.

E foi sorvendo chá de não sei qual Companhia das Índias, bom para não sei o quê no organismo, que eu me despedi de Londres.

À noite eles me levaram para passear às margens do Tâmisa, e eu fotografei a fachada do Globe Theatre. Ele fez a sua imitação de Hamlet do ponto de vista de Mel Gibson e acabamos enquadrados numa foto diante do rio (essa foto está comigo, bem como outras em que apareço de fone de ouvido na sala de visitas onde gravamos o disco, enquanto Maya soprava bolhas de sabão no ar).

Lembro que falamos sobre tudo num pub, durante aquela semana, e honestamente não saíamos de casa, como se eu morasse ali também, o sétimo membro, depois do cachorro peludo e do anãozinho do jardim, pelos quais todos tinham imenso carinho.

Lembro dos fins de tarde, e dos filmes noir que ele não se cansava de ver, e da hepatite C cujos remédios o faziam subir as escadas carregando o grande peso da luz do dia, remédios que o derrubavam na cama, à espera da noite abençoada com a presença de Keiko distribuindo ordens. E assim eu ajudava a pôr o lixo pra fora e urinava sentado na privada, pois afinal duas mulheres moravam ali, e essas eram as regras da casa.

Certa manhã em que Maya e Edu já estavam na escola, e Keiko tinha saído para dar uma aula de português, ele me levou para o aeroporto. Junto comigo, de volta para o Brasil, viajou a fita-cassete com a nossa última gravação.

 

 

Agora meu amigo voava sobre o Atlântico, não só para o casamento da irmã, mas com um número secreto de stand-up ensaiado diante do espelho. Como é que isso pôde acontecer sem que nos déssemos conta?

Do alto dos meus 52 anos, estou querendo explorar um potencial (ainda) oculto meu, o de comediante. Criei duas rotinas de stand-up prontinhas para serem testadas. São em português, eu encarno um inglês, o Nigel (uns 25 minutos), que adora o Brasil, em especial “as brasileiras”, e o Bóris (15 minutos), um russo que adora o Brasil, em especial as “prostitutas”. São dois “acts” de comédia que desenvolvi com carinho, e não consigo achar oportunidade de testar isso aqui em Londres (por ser em português). Queria aproveitar minha visita a São Paulo para eventualmente testar isso numa noite de stand-ups ou algo parecido. Quero me apresentar de graça mesmo. Preciso de um público.  Mas estou completamente por fora do circuito. Você conhece alguma casa ou esquema dedicado a isso? Tem alguma sugestão?  

Abs.

A Hora do Jazz (6)

No vôo noturno de Londres para São Paulo, sem dormir, meu amigo pensava na caixinha de música tocando “Moon River” guardada na garagem. Voltou para lá em espírito, sentou-se no chão e ficou adiantando e recuando o andamento da canção na manivela. As lágrimas escorreram, mas como estava acordado no meio dos passageiros adormecidos, deixou que as lembranças do filho Edu chegassem com tudo e se acomodassem ao seu lado (no colo de uma mulher inglesa que roncava baixinho, e a quem ele ajudara a colocar a bagagem de mão no compartimento).

Edu passou um bom tempo “fornicando como um coelho” com a namorada boazinha, que não saía da casa deles. Então eram Edu e ela, até o dia em que Edu e ela saíram de casa e foram cuidar da própria vida. E agora eram só ele, Keiko e Maya, a depositária de todo o afeto dos pais.

A caixinha de música interessara ao menino Edu muito mais pelo mecanismo diminuto do que pelo som de “Moon River”. Mas meu amigo notou que era só girar a manivela no quarto de Edu para ele começar a dormir, e assim ele se acostumou a dormir com a música tocando no criado-mudo, perto do ouvido. “Moon River” era o sono do menino Edu, que agora era um homem a fornicar pelos cantos, antes de encarar a dureza da vida, que não tem “Moon River” na trilha.

Ainda é um rapaz que vive de bicos, enquanto a namorada trabalha numa livraria de Peckham (“Onde fica o parque do Blake”), mas amanhã o que será? Dá para o gasto, mas eles andam vivendo mais para os lados do pai dela, que mora ali perto.

Edu cismou de tocar contrabaixo durante um tempo. Montou uma banda na escola, e os meninos ensaiavam na garagem do meu amigo. Ele já pensava em ficar rico por causa dessa nova banda que pretendia empresariar, mas havia uma delas a cada esquina, e Edu se desinteressou da música. Antes disso, eles embarcaram numa onda de ska. Era a maconha dos jardins do meu amigo fazendo algum efeito.

Uma noite, na garagem, meu amigo pisou na caixinha de música, entortando a manivela. O pior foi descobrir que ela andava por ali, a caixinha de sono do menino Edu. Não existia mais nenhum menino, nem sono no quarto que Maya agora ocupava. Na hora de dormir, Maya preferia uma historinha em português. Keiko contava.

A história da princesa orgulhosa que rejeitava todos os pretendentes oferecidos pelo pai, dando-lhes apelidos grotescos, como Rei Bico de Tordo. Keiko sempre forçada a explicar o que era um tordo, de tal forma que a explicação ocupava a maior parte da história, e no final uma enciclopédia era chamada, e lá estava a imagem do tordo.

Mesmo com tantas interrupções a menina cresceu, e estava agora naquele ponto em que poderia tombar para o lado de algum aventureiro cabeludo que um dia aparecesse na porta da garagem e se apresentasse ao velho rei roqueiro, a postos com sua barba e sua ferocidade.

Maya, quando era bem pequena, levou o pai para a escola fantasiado de urso. Na cabeça dele, tinha a ver com Peter Pan. Era uma festinha em que quase todas as crianças se fantasiaram de garotos perdidos, e os pais, de pirata. Maya explodia de felicidade em sua roupa de Wendy. Meu amigo já desceu do carro caracterizado, bateu tranquilamente a porta do veículo e entrou brincando com as chaves, Tilintim.

Foi o assunto de pais e filhos. Parecia assustador, no começo. Mas “Repara que há veludo nos ursos”, escreveu o Drummond. No final, Maya dormiu no colo do pai, seus olhos quase orientais ainda mais selados. Estava afundada num velho e confortável veludo animal.

madrid_urso.jpg

veludo animal

A Hora do Jazz (5)

crepusculo-de-cubatao.jpg   Lembro que houve no Rio um lugar onde o sol não brilhava, na rua Barata Ribeiro, em Botafogo. Um dos donos era o Ronald Biggs, ladrão e boa-vida.

Eu e meu amigo tocamos lá no Carnaval de 1987.

Foi a primeira vez que fui ao Rio. A primeira vez a bordo de um avião, o Electra de fuselagem prateada. Nossa primeira e única turnê mundial.

Lembro de um espelho enorme com moldura rococó; do chapeleiro, que morava numa quitinete de Copacabana com os pais; de um drinque chamado “Natal nas Minas de Carvão”.

Lá o negócio era sério. M. , que estava conosco, foi barrado na entrada porque usava uma bermuda, parecendo assim um autêntico carioca. Voltou para o hotel, vestiu o preto básico e passou pelo leão-de-chácara como se fosse o que era de verdade, um homem sempre de preto.

Havia umas trinta pessoas lá dentro. Era um show de bolso muito íntimo, entre desconhecidos.

Tocamos os sambinhas meio góticos, começando assim: “Es-ta é a ho-ra do jazzzz”. Meu amigo na guitarra e na bateria eletrônica Drumatix, vestindo uma camisa havaiana. Eu lendo minhas letras numa caderneta de capa preta e imitando uma cuíca e um trompete. Não enxergava nada e a gente não tocava nada também. Era parte do encanto.

Dizem que o próprio Biggs passou por ali, mas foi embora rapidinho.

Portanto, estive no Rio num Carnaval sem Carnaval. Aprendi que os cariocas fogem da cidade nessa época do ano.

Os 30 que sobraram –gatos pingados vestidos de preto – dançavam o pogo na pista. O pogo dos solitários, a valsa dos punks do Rio de Janeiro.

Fazia calor lá fora. Mas o sol não brilhava no Crepúsculo de Cubatão.

A Hora do Jazz (4)

joao_gilberto.jpg  Londres, 2001. Meu amigo vai para a rua segurando o violão. De terno e gravata, os dois, ele e eu. Sigo logo atrás na calçada, diante da parede que deve ter pertencido a um depósito, onde os tijolos vitorianos valem cem libras cada um, segundo ele me contou. “Aqui não se atira tijolos em ninguém”.

Vamos fazer as fotos de divulgação do disco que gravamos ali, na sua sala de visitas. Fotografia é uma coisa muito séria nesse negócio: primeiro nasce o nome da banda, depois se faz a foto e por último, as músicas.

Muitas fotos de cara feia. Ele ainda padece sob os efeitos do remédio para a hepatite C contraída no Brasil. O sol bate direto na sua testa grande, e queima. Keiko nos fotografa. É assim tão doméstico quanto gravar em casa.

Depois, no jardim dos fundos, no quintal onde bem poderia aparecer uma lebre com uma xícara na mão, perto do buraco nos arbustos onde daria para entrar e desaparecer, Keiko tira mais fotografias.

A ideia é parecer o João Gilberto. Não é uma espécie de disco de MPB? É isso que gravamos na sala de visitas: uma espécie de disco de MPB.

Numa das canções, meu amigo roubou as cordas de uma gravação de Elizeth Cardoso. Outra tem um pandeiro, que ele mesmo tocou. Outra tem corais múltiplos d’ Os Cariocas — quer dizer, ele multiplicando sua imitação d’Os Cariocas. E assim por diante.

Na canção das cordas roubadas de Elizeth, ele fez uma voz de castrato. Um estranho castrato. Mas normalmente ele é o cara que ruge. Parece um hooligan.

Certa vez saímos para comprar comida tailandesa e ele disse que M. tinha câncer na boca. Foi um choque profundo. Disse que o odor do câncer ficava impregnado no quarto.

  1. já estava fazendo quimioterapia no hospital da Unicamp. Sofria o diabo. Isso e outras poucas coisas, embora importantes, eram o que tinha sobrado do nosso tempo de rock.
  2. era um tipo de Keith Richards com a mesma guitarra Fender Stratocaster branca. Alto, magro, cabeça grande e redonda, olhos azuis assustados, cabelos desgrenhados, mais para criança do que para adulto. Aprendendo inglês com os Beatles e os Rolling Stones.

Agora, acabou a sessão de fotos. Os dois homens vestidos de João Gilberto entram na cozinha. Ele vai com o violão no ombro. E eu sou o italiano amarrado em bossa nova que segue logo atrás dele — sempre haverá alguém assim, inclusive um japonês ou um alemão, na cola do João Gilberto. Pelas ruas ensolaradas do Rio de Janeiro.